A nadar em dinheiro




Receita para fazer um milionário

Obsessão, confiança, estabilidade afetiva... É preciso ser feito de outra massa. Não garantimos o êxito, mas, se quer ser o próximo Zuckerberg ou Bill Gates, deverá cumprir rigorosamente os mandamentos que expomos em seguida.

São disciplinados, trabalhadores, obsessivos, perseverantes e discretos, e não têm medo de correr riscos. Um cocktail explosivo de qualidades permite que alguns dos nossos congéneres reúnam, em vida, uma fortuna com a qual os restantes mortais nem ousam sonhar. Um estudo de Thomas Stanley, professor de economia da Universidade da Geórgia, e William Danko, professor de marketing da Universidade de Nova Iorque, resumem no livro The Millionaire Next Door todas as coisas que têm em comum, depois de efetuarem centenas de entrevistas a multimilionários nos Estados Unidos.

Para começar, trabalham entre 45 e 55 horas por semana e não têm chefe (dois terços dos milionários norte-americanos trabalham por conta própria, uma percentagem elevada, pois apenas um quinto da população consegue ser o seu próprio chefe). São proprietários da casa em que vivem há mais de 20 anos. Gastam muito na educação dos filhos, os quais se tornam, em geral, economicamente independentes muito cedo.

Além disso, 95 por cento casaram uma única vez e mantêm o mesmo casamento. Metade das suas mulheres são donas de casa, com grande vocação para poupar e administrar a economia doméstica. Um dado curioso: a ocupação maioritária das que trabalham fora de casa é o ensino, como acontece com a esposa de John D. Rockefeller.

Por outro lado, Jay Zagorsky, do Centro de Pesquisa de Recursos Humanos da Universidade do Ohio, observava, num estudo recente publicado na Journal Intelligence, que o quociente intelectual não é um fator determinante. “Ser inteligente não impede que se tenha problemas económicos”, assegura o especialista, que suspeita que o segredo reside em saber poupar. “Basta observar os parques de estacionamento das principais universidades para comprovar que inteligência e riqueza não andam juntas. Não se vê um Porsche...”

Também não é preciso ter carreira académica para criar um império. É o que têm em comum Bill Gates (Microsoft), Steve Jobs (Apple), o espanhol Amancio Ortega (Zara), Michael Dell (Dell) ou Larry Ellison (Oracle): nenhum deles possui uma licenciatura.

Origens humildes

Por outro lado, se encontramos consolo em pensar que não nadamos na abundância porque não tivemos a sorte de nascer em berço de ouro, mais vale procurar outra desculpa. Já em 1976, no livro The American Economy – Income, Wealth, and Want, Stanley Lebergott indicava que 84% dos milionários representavam a primeira geração, tal como acontece com os cinco homens mais ricos do mundo, segundo o último ranking da revista Forbes.

O dado é corroborado no recente estudo de Danko e Stanley: 80% dos indivíduos só se tornam milionários aos 55 anos, depois de terem eles próprios acumulado uma fortuna sem a ajuda do papá. A família não os sustentou nem lhes deu apoio depois de atingirem a maioridade. Em mais de metade dos casos, não receberam qualquer herança e menos de 10% esperam vir a recebê-la. Nenhum dos seus parentes se revelou muito generoso: menos de um quarto afirmam ter recebido mais de dez mil dólares da família.

Para cúmulo, esta nem pagou os estudos universitários a mais de metade, e quase todos frequentaram o ensino público. Os dados confirmam a tese de Harv Eker, autor de Secrets of the Millionaire Mind: os magnatas começam por se responsabilizar pela sua própria existência, sem esperarem favores ou presentes ou que alguém lhes resolva os problemas.

Por isso, não é raro encontrar origens humildes e infâncias pouco abastadas nas biografias dos milionários. Larry Ellison, fundador da Oracle, filho de pai desconhecido, foi criado por uma tia num bairro desfavorecido. Steve Jobs, de origem síria, foi dado em adoção a um casal humilde: ela era doméstica e ele trabalhava na companhia ferroviária do estado. Amancio Ortega, fundador do império têxtil Inditex, nasceu numa terreola leonesa, no seio da classe operária, em plena Guerra Civil espanhola. Aos 13 anos, jurou que a família não voltaria a passar fome, ao ouvir o dono da mercearia local dizer à mãe que não lhe podia fiar mais. Por outro lado, a maioria dos muito ricos provém de famílias de emigrantes (nos Estados Unidos, os russos ocupam o primeiro lugar, seguidos de escoceses e húngaros). Finalmente, o homem mais abastado do mundo, Carlos Slim, é filho de imigrantes libaneses no México.

Ideias fixas

“A imensa maioria das pessoas não possui a capacidade interior necessária para criar e conservar grandes somas, nem para enfrentar os desafios que acompanham o facto de ter mais dinheiro e mais êxito”, assegura Harv Eker. “Vários estudos demonstraram que a maior parte das pessoas que ganham a lotaria acabam por voltar ao estado económico original, isto é, à situação a que estavam habituadas. Por outro lado, acontece o oposto aos milionários que se fizeram a si próprios. Quando perdem dinheiro, voltam a recuperar tudo num prazo relativamente curto.” Foi o que aconteceu a Donald Trump, que perdeu milhares de milhões na crise económica de 1992. Dois anos depois, acumulara esse dinheiro e muito mais.

Aparentemente, um requisito mental indispensável para chegar ao topo é sentir-se dono do próprio destino. Assim, evita-se qualquer atitude de vitimização ou a tentação de culpar os outros ou a situação, pois isso iria retirar o poder de mudá-la. Além disso, os futuros multimilionários sabem muito bem o que querem da vida, sem qualquer tipo de dúvida e de forma incondicional. O seu slogan poderia ser: “Ou serei rico ou morrerei a tentar”. É a sua única prioridade, acima da família, dos amigos, do tempo livre, dos problemas psicológicos que possam ter, dos medos e mesmo da própria saúde.

Se a conta bancária do leitor estiver na mó de baixo e ainda continuar a pensar que bom era estar cheio de dinheiro, talvez esta observação de Eker o esclareça um pouco: “O caminho que conduz à riqueza está eriçado de armadilhas e obstáculos. Por isso, a maior parte das pessoas não o escolhe: não quer complicações, nem dores de cabeça, nem responsabilidades.”

Onde outros só veem obstáculos, os milionários detetam oportunidades e possíveis recompensas. Rockefeller aproveitou a Guerra Civil americana para se encher de ouro a vender petróleo a soldados da União – e evitou, seguramente, juntar-se às fileiras, ao contratar vários substitutos para partirem em seu lugar. Carlos Slim aproveitou a crise que assolou o México na década de 1980 para investir em imóveis e comprar e recuperar empresas falidas.

No mesmo sentido, segundo um estudo da Forbes que analisava as características de 657 bilionários de todo o mundo, quase todos tinham sofrido um importante revés empresarial no início da sua carreira, com o qual tinham aprendido. “O fracasso precoce constitui uma condição para o êxito”, adverte R.J. Kirk, magnata da indústria farmacêutica.

Uma questão de horas

Outra qualidade intrínseca deste invejado grupo humano é pensar em grande, sem limites, sem medo e a longo prazo. Além de lançar mãos à obra. “Os ricos agem. Acreditam que, uma vez em jogo, conseguirão tomar decisões inteligentes, corrigir o que estiver mal e ir ajustando as velas aos ventos que sopram.” No reverso da moeda, os que nunca conseguirão encher a carteira, segundo Eker, “pensam que têm de saber tudo com antecedência, o que é quase impossível, e não mexem um dedo”.

No livro Outliers – The Story of Success, o jornalista britânico Malcolm Gladwell defende que todos os vencedores possuem em comum o facto de terem praticado mais tempo e com maior afinco do que os outros. Foi o que os ainda desconhecidos e principiantes Beatles fizeram quando um empresário alemão os contratou para trabalharem no seu clube noturno de Hamburgo, por volta de 1960. “Em Liverpool, só tínhamos feito espetáculos de uma hora e apenas tocávamos as melhores músicas, sempre as mesmas, uma vez. Todavia, em Hamburgo, tínhamos de tocar oito ou nove horas seguidas, seis dias por semana. Fomos melhorando e adquirindo confiança em nós próprios. Tocar toda a noite dava-nos muita experiência. Além disso, como éramos estrangeiros, tínhamos de nos esforçar ainda mais, colocar toda a alma nisso, superarmo-nos”, explicou John Lennon numa entrevista a Gladwell.

Dormir para quê?

É igualmente elucidativo o caso de Bill Gates, que, em 1971, aos 16 anos, descobriu uma empresa que o deixava usar os computadores a troco de criar um programa para automatizar o pagamento dos salários aos trabalhadores. Em sete meses, investiu ali 1575 horas de trabalho informático, ou seja, uma média de oito horas por dia, sete dias por semana, “Era uma obsessão”, admitia Gates. “Faltava às aulas de atletismo da escola. Ia para lá de noite, passava os fins de semana a programar. Era rara a semana em que não ficava vinte ou trinta horas seguidas frente ao computador.”

Um dia, o chefe descobriu que Gates se apoderara de algumas senhas para entrar no sistema e despediu-o. Porém, ele não desistiu. Soube que havia um computador na Universidade de Washington que estava sempre ocupado, menos das três às seis da manhã. “Saía de casa de noite, quando era suposto estar a dormir, e caminhava até à universidade”, recorda, no livro de Gladwell. A sua mãe sempre se perguntara, com razão, por que lhe custava tanto levantar-se de manhã, como reconheceu posteriormente a própria senhora. Assim, quando Gates abandonou os estudos universitários, no segundo ano, para fundar a sua própria companhia de software, estava, literalmente, a programar sem parar há sete anos.

No entanto, quando lhe perguntaram, o fundador da Microsoft sublinhou que tinha tido “muita sorte”. A ambição, a perseverança e o talento não foram as únicas chaves do seu êxito. Tudo vinha dos tempos do ensino secundário, em Seattle. Na sua escola, havia uma associação de mães que organizava uma pequena feira anual para investir o dinheiro reunido em oficinas e excursões para os jovens. Porém, houve um ano em que decidiram destinar os três mil dólares que tinham obtido à compra de um computador e à criação de um clube de informática. “Algo incrível, pois estava-se em 1968. Na década de 1960, nem todas as universidades, e muito menos as escolas do ensino secundário, tinham computadores”, indica Gladwell.

Se não fosse isso, talvez o jovem Bill nunca tivesse descoberto a sua vocação. “Nessa época, o nosso mundo só permitiu a um rapazinho de 13 anos ter acesso ilimitado a um computador. Se milhões de adolescentes tivessem tido a mesma oportunidade naquela altura, quantas Microsofts teríamos hoje?”, interroga-se o jornalista.

Outro fator que tem a ver com o acaso é o de estar no momento e no local adequados. Foi o caso de Rockefeller, de Andrew Carnegie (na primeira e segunda posições da lista de maiores multimilionários de todas as épocas e lugares) e de J.P. Morgan, os quais nasceram na década de 1930, nos Estados Unidos, num período de grandes transformações e possibilidades: apogeu da revolução industrial, nascimento de Wall Street... Ou o de Steve Jobs, que cresceu em Mountain Valley, na Califórnia, o epicentro de Silicon Valley.

Contudo, não se trata apenas de ter a oportunidade, mas de saber aproveitá-la. É a isso que se chama “talento empresarial”, outro ingrediente indispensável. Para demonstrá-lo, uma história: em 1980, Gates vendeu à IBM o sistema operativo MS-DOS, que ele não programara e que ainda não possuía. Depois, comprou-o a um preço muito baixo ao jovem e ingénuo programador que o criara. No contrato com a IBM, foi suficientemente esperto para negociar condições fundamentais: a Microsoft ficaria com os direitos de licenciamento e podia vender o MS-DOS a outras companhias. A IBM aceitou, pensando que o que iria dar dinheiro seriam os seus equipamentos, e não o software. Bill Gates tinha outra ideia.

Nem tudo o que é ouro brilha

Os verdadeiros milionários não usam relógios de luxo, nem o último modelo de carro desportivo, nem fatos caros. Vivem muito abaixo das suas possibilidades, não gostam de se exibir e preferem uma tosta mista a caviar. Ao contrário do que se poderia pensar, o seu estilo de vida é bastante modesto. Em média, gastam por ano menos de 7% da sua fortuna, de acordo com o estudo de Stanley e Danko.

Warren Buffet (o mais rico do mundo em 2008, segundo a Forbes, e hoje em terceiro lugar) aconselhava, numa recente entrevista à cadeia CNCB, “viver da maneira mais simples possível e não gastar dinheiro em coisas desnecessárias”. Há 50 anos que Buffet vive na mesma casa, não tem motorista nem guarda-costas e nunca viaja em aviões particulares, apesar de ser dono da maior empresa do ramo.

É muito mais provável que um executivo ou um profissional liberal da classe alta gastem dinheiro num relógio de 5000 euros ou peçam um empréstimo para comprar o último modelo da Ferrari. Os multimilionários natos não. Preferem ter dinheiro em ativos do que exibir um estilo de vida luxuoso. E também não se deixam ver muito. Rockefeller, um exemplo de discreção, nunca foi notícia nas páginas sociais. Warren Buffet não mantém reuniões com os CEOs das suas companhias nem lhes telefona, embora lhes envie, todos os anos, um cartão de Boas Festas, escrito à mão, na época natalícia. Outro caso típico é o do francês Bernard Arnault, magnata do mundo da moda, igualmente cioso da sua intimidade, sempre afastado dos flashes e das revistas de bisbilhotices. Ou o de Amancio Ortega, cujo rosto se manteve desconhecido do público durante muitos anos e que não comparece em festas, reuniões empresariais ou inaugurações.

“Não trabalhes pelo dinheiro, deixa que o dinheiro trabalhe por ti.” A máxima foi criada por Rockefeller, que percebeu o valor de investir na tenra idade de oito anos, quando emprestou 50 dólares a um amigo do pai (pois este não tinha dinheiro para emprestar e o rapazinho poupara o que ganhara num negócio de venda de pedras coloridas aos seus colegas da escola), a uma taxa de juro de 7%. Um ano depois, quando recebeu a soma inicial e os juros, percebeu de imediato qual era a sua vocação: fazer muito dinheiro. “Não se trata apenas de conseguir lucros; o importante é o que se faz com eles”, reitera Eker. Segundo Stanley e Danko, os milionários investem cerca de 20% dos seus rendimentos e tomam as suas próprias decisões em matéria de investimentos.

Portanto, o cocktail vencedor é complexo e inclui muitos ingredientes indispensáveis, difíceis de reunir. Apesar disso, como resume Malcolm Gladwell, “tudo indica que o êxito é previsível”: “Não são os mais brilhantes que triunfam. Não depende, também, da soma de decisões e esforços. Constitui, sobretudo, um dom. Trata-se de ver as oportunidades e ter a força e a vontade de aproveitá-las.”


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