Está aí alguma entidade?





Os mortos não escrevem nem falam por sussurros
Serão reais as vozes e os sons espectrais que se pensa ouvir nas psicofonias? Ou somos, apenas, facilmente sugestionáveis e o espiritismo não passa de uma simples montagem?
"Isto está a ir muito mal”, afirma, com voz trémula, Ana, que participa numa sessão de ouija, juntamente com outros três voluntários, nas instalações de uma antiga fábrica de chocolate. O encontro teve início às onze da noite e cumpre todos os cânones do espiritismo: primeiro, os quatro deram as mãos durante um minuto; depois, colocaram os dedos sobre um copo virado de boca para baixo em redor do qual estão dispostas as letras do alfabeto. A ideia é esperar que alguma “entidade” responda às perguntas que o grupo coloca em voz alta, como “Está alguém aí?”, “Conhece-nos?” ou “Quem é?”.
Após 20 minutos de quietude, quando os ânimos já esmorecem, o copo começa a deslizar pelo tabuleiro. O susto é monumental. “Juro que quase não tinha o meu dedo lá em cima!”, exclama outra participante. Pouco a pouco, o suposto “espírito” começa a responder a algumas perguntas. Chamava-se Laura e tinha trabalhado naquele local. Embora não tivesse falecido ali, estava ligada à fábrica por alguma razão obscura. Por essa altura, já ninguém tinha dúvidas: tinham conseguido contactar com o espírito de um morto. Na realidade, porém, estavam completamente enganados.
Foi em 31 de março de 1848 que as irmãs Kate e Maggie Fox fundaram o espiritismo moderno. O ser humano sempre acreditou que a morte não é o fim, que algo nos aguarda após o último suspiro. Todavia, o que supostamente conseguiram essas meninas de 12 e 15 anos de idade foi quebrar a barreira intransponível que nos separa do Além e, literalmente, falar com os mortos. As irmãs Fox anunciaram a boa nova ao mundo na sua modesta quinta em Hydesville, no norte do estado de Nova Iorque, e, posteriormente, na vizinha cidade de Rochester: existe vida depois da morte e podemos comunicar com os nossos entes queridos que já faleceram.
aliar ciência e religião
A notícia espalhou-se como pólvora e, em apenas quatro anos, cinco por cento da população norte-americana convertera-se ao espiritismo. As manas Fox percorreram povoações e cidades e, por onde passavam, surgiam pessoas que também se diziam capazes de operar o prodígio. A idade de ouro do espiritismo prolongou-se até ao início da Segunda Guerra Mundial. Era um verdadeiro espetáculo de massas, com exibições públicas, centenas de milhares de médiuns a oferecerem os seus serviços em troca de alguma compensação monetária, amigos que se reuniam em casa para invocarem os seus mortos
Em França, um pedagogo chamado Hippolyte Léon Denizard Rivail encontrou no fenómeno uma possível via para concretizar o que considerava ser o principal objetivo da educação: a aliança entre ciência e religião. A 30 de abril de 1856, os espíritos revelaram-lhe a transcendental missão de salvamento de que fora incumbido. Reunidos em conclave, tinham-no escolhido como porta-voz para dar a conhecer ao mundo uma nova doutrina, e disseram-lhe que, numa vida anterior, tinha sido um druida, o chefe de uma comunidade, chamado Allan Kardec. Foi assim que escreveu, ditado por aqueles seres, o Livro dos Espíritos, pedra angular do movimento, que surgiu nas livrarias de Paris em 18 de abril de 1857 e conheceu três edições em menos de um ano.
De facto, foi Kardec que criou o termo “espiritismo”. Até essa altura, apenas se falava em “espiritualismo”, nos meios anglo-saxões. Contudo, havia profundas diferenças entre ambos. Aparentemente, as almas que contactavam britânicos e norte-americanos não tinham a mesma opinião que as suas colegas gaulesas sobre alguns temas, como a reencarnação. Por sua vez, entre os mortais, os estudiosos ingleses consideravam Kardec “muito pouco científico”, por muito que insistisse que o espiritismo não era uma religião, mas uma ciência, uma filosofia e um sistema moral.
Anteriormente, no verão de 1853, Michael Faraday, um dos físicos mais importantes da história, dedicara-se ao estudo da parte mais espetacular das sessões espíritas. Nelas, parecia que os mortos se deslocavam e chegavam a erguer pesadas mesas de madeira. O fenómeno era conhecido por “mesas giratórias”, e tornou-se a diversão mais aplaudida no Ocidente, chegando a ser praticada pela família real da Prússia.
Contra a credulidade
Faraday era um homem profundamente religioso e perito em conceber experiências. Criou uma série de inteligentes testes para determinar a veracidade do fenómeno e a sua origem. Contactou com “pessoas honradas e bem-sucedidas deslocadoras de mesas”, que estavam convencidas de nunca as terem empurrado. Para provar a sua tese, Faraday inventou um par de dispositivos engenhosos. O primeiro consistia em vários pedaços de cartão que podiam deslizar e eram colocados, um sobre o outro, em cima da mesa. Por baixo, fora desenhado um traço com lápis para marcar a sua posição relativa. Qualquer movimento involuntário das mãos seria delatado por uma interrupção na linha. Foi o que aconteceu.
Na outra experiência, Faraday fixou uma agulha a duas pequenas tábuas na mesa, de modo que, se ela fosse empurrada pela médium, o indicador deslocar-se-ia para a esquerda e, se a puxasse, inclinar-se-ia para a direita. O resultado foi conclusivo: a agulha revelou, sem margem para erro, que o móvel estava a ser empurrado. Todavia, o mais interessante acontecia quando a médium podia ver o indicador, de modo a conseguir perceber os seus próprios movimentos musculares inconscientes. Quando a agulha assinalava o esforço, o indivíduo reagia descontraindo os músculos e a mesa não se mexia.
Definitivamente, os espíritos não eram para ali chamados. Faraday concluiu: “Embora acredite que os presentes não têm a intenção de fazer deslocar a mesa, obtêm esse resultado por uma ação praticamente voluntária. Continuam sem duvidar da influência da esperança nas suas mentes, e é nisso que reside o êxito ou o fracasso dos seus esforços.”
Não sabe o que faz...
Os estudos de Faraday foram publicados no jornal The Times em 30 de junho de 1853 e, passado dois dias, com mais pormenor, na revista Athenaeum. Embora fossem sumamente minuciosos, não convenceram os espíritas. Tanto na altura como hoje, afirmam que observam e anotam tudo cuidadosamente nas suas sessões, mas esquecem que o mais importante é saber para onde olhar, e isso não se aprende por ciência infusa.
Um dos golpes mais fortes desferidos contra a linha de flutuação do espiritismo francês surgiu da parte de Michel-Eugène Chevreul, diretor do Museu de História Natural de Paris. Mundialmente conhecido como químico e inventor da margarina, explicava da mesma forma, no livro Da Varinha Divinatória e das Mesas Giratórias (1854), o funcionamento da varinha de vedor e das mesas espíritas. Segundo Chevreul, os movimentos produziam-se porque a mente inconsciente obrigava os músculos a movimentarem o objeto para obter uma resposta adequada às perguntas feitas pela mente consciente. O mérito da explicação reside no facto de resolver o problema do motivo pelo qual os indivíduos não têm consciência de estarem a empurrar a mesa ou um pêndulo, e pensarem que os responsáveis são os espíritos ou forças desconhecidas.
Faraday e Chevreul demonstraram a existência de um fenómeno conhecido em psicologia pelo termo “ação psicomotora”. É suficiente pensarmos em efetuar uma ação para o nosso corpo se preparar para concretizá-la, sem termos consciência disso. Além disso, basta colocarmos a hipótese de não fazer algo para o cérebro lançar mãos à obra: por exemplo, se nos disserem “não pense em ursos brancos”, a imagem de um daqueles animais surgirá na nossa mente sem podermos evitá-lo.
Para comprovar o efeito psicomotor que governa estes fenómenos, organizámos a já referida sessão de ouija na antiga fábrica de chocolates. Preparámos, para a experiência, um tabuleiro especial em que as letras do alfabeto estavam dispostas em círculo, depois de terem sido impressas em cartões de visita (um por cada letra). Quando o copo começou a deslocar-se, os nossos quatro voluntários estavam absolutamente convencidos de que tinham conseguido contactar um espírito.
Contudo, era a segunda parte da experiência que se tornava verdadeiramente interessante. No reverso de cada cartão, fora impresso um número. Tínhamos atribuído um a cada letra, de forma aleatória. Por exemplo, ao A correspondia o 14; ao B, o 21... Misturámos os cartões como se baralham as cartas, antes de os dispormos para formar outra tábua de ouija. Se fosse mesmo um espírito a comunicar, os participantes não teriam necessidade de saber onde se encontrava cada letra. Nesta segunda experiência, o copo também se deslocou sobre o tabuleiro, mas as respostas foram uma série de letras sem sentido. A conclusão, como já tinham explicado Faraday e Chevreul, é que são as pessoas que o fazem deslizar através do mecanismo das ações psicomotoras.
As vozes dos mortos
A procura de uma demonstração experimental de que podemos contactar com os mortos conheceu uma verdadeira revolução no verão de 1959. Nesse ano, Friedrich Jürgenson, um pintor de origem ucraniana adepto da ornitologia, descobriu, depois de ter gravado o canto do melro e do tentilhão, que se podia escutar nos intervalos o que parecia ser vozes humanas. Era estranho: quando registara os sons, não havia gente nas redondezas. O fenómeno continuou a verificar-se, chegando a sobrepor-se, por vezes, aos cantos das aves. Um dia, a voz de uma mulher chamou-o pelo seu nome; parecia a da sua mãe, já falecida, que lhe dizia: “Friedrich, estás a ser observado. Friedel, meu pequeno Friedel, consegues ouvir-me?” Acabava de captar as suas primeiras psicofonias.
É esta, pelo menos, a versão dos defensores dos fenómenos paranormais. Contudo, uma coisa é o mito e outra a realidade. Narrado assim, parece uma descoberta completamente fortuita, mas a história não é tão “inocente” como parece à primeira vista. O próprio Jürgenson revelou que, no inverno de 1958, já levara a cabo algumas experiências “preliminares”, motivado por um “intenso desejo de estabelecer um contacto eletrónico com algo ou alguém desconhecido”. Além das gravações, Jürgenson desenvolveu um novo método de comunicação espírita: movia lentamente os botões do rádio até sintonizar a frequência em que os espíritos “transmitiam”. Claro que havia um truque, pois não o fazia intuitivamente: contava com a ajuda de uma “guia espectral”, uma tal Lena que lhe murmurava “agora”, do Além, quando o ponteiro passava pelo ponto adequado.
O problema é que as supostas gravações de vozes do Além não eram nítidas e cristalinas. As “mensagens”, quase inaudíveis, mal se faziam ouvir acima do nível de ruído, de modo que era necessário escutá-las várias vezes para tentar perceber o que diziam. De facto, as psicofonias não convenciam os espíritas. Em algumas publicações associadas ao movimento, como a Light, chegou a dizer-se que, se essas vozes provinham de espíritos desencarnados, deviam ser de “baixo nível”, pois “muitas são frases curtas, triviais, inconsequentes e sem sentido”.
Mais do que fé
A machadada final nas gravações de Jürgenson, assim como nas que faria, posteriormente, o grande divulgador das vozes, o alemão Konstantin Raudive, foi desferida, em 1972, por David Ellis. Depois de estudar e analisar as gravações em bruto das melhores psicofonias disponíveis, este investigador da Universidade de Cambridge concluiu que “não há razão para postular outra coisa que não sejam causas naturais: fragmentos de emisssões radiofónicas, ruídos mecânicos, frases de pessoas ao longe; tudo isso, associado a uma imaginação delirante e ao desejo de escutar o que se quer ouvir”. O que Ellis descobriu é que as supostas vozes de espíritos não passavam de um exemplo do que é conhecido por “pareidolia”. Já todos experimentámos o fenómeno ao distinguir formas de animais nas nuvens. Houve mesmo quem acreditasse ter visto a alegada face de Jesus numa sandes.
Quisemos comprovar até que ponto a pareidolia pode ser responsável pelo que se pensa escutar nos fenómenos de “voz eletrónica”. Utilizámos, para a experiência, gravações de duas psicofonias reconhecidas como tais pelos defensores do paranormal. É importante assinalar que não se tratava das gravações em bruto, mas de versões que já tinham sido manipuladas para fazer “sobressair” as vozes captadas. A experiência consistia em fazer três pares de pessoas ouvi-las. Ao primeiro, indicou-se previamente que as psicofonias eram, em geral, ruídos que se confundem com vozes; ao segundo, foi dito que se tratava de frases autênticas proferidas por espíritos; ao terceiro, que deviam apenas tentar identificar o que se ouvia nas psicofonias.
Terminado o estudo, descobrimos que a pareidolia explica o fenómeno na perfeição. Nenhum par deu uma versão coincidente com as dos outros no que se refere ao conteúdo das supostas mensagens. Isso demonstra que as gravações, apesar de terem sido manipuladas informaticamente para tornar audíveis as “frases”, eram absolutamente ininteligíveis. Por outras palavras, a inteligência que cria as supostas vozes não está na gravação, mas em quem a escuta.
O mais curioso foi descobrir como é fácil induzir uma pessoa a ouvir o que queremos que oiça. Uma das psicofonias utilizadas fora gravada por defensores do sobrenatural numa povoação emblemática do misterioso mundo oculto. O par a quem fora dito que se tratava apenas de ruídos não identificou vozes humanas na gravação, mas apenas o som do vento. Pelo contrário, os outros grupos afirmaram escutar palavras, embora incompreensíveis.
A segunda psicofonia fora gravada num ambiente universitário. Ao par a quem fora dito que era verdadeira, foi proporcionada uma informação adicional: asseguraram-lhes que havia, nesse sítio, uma presença que não desejava que alguém se encontrasse naquele local. Ambos os elementos do par disseram ter ouvido as palavras “ide-vos daqui”, a mesma mensagem que os adeptos do paranormal tinham afirmado que se escutava. Os outros dois pares, porém, não ouviram tal frase.
A conclusão da investigação é simples: nem a tábua ouija nem as psicofonias representam qualquer prova da existência de vida após a morte, nem de que possamos comunicar com “o outro lado”. Em que ficamos, então? Deixemos falar a fundadora do espiritismo, Margaret Fox. Em 24 de setembro de 1888, afirmou numa entrevista ao New York Herald: “O espiritismo é, do princípio ao fim, uma fraude, a maior fraude do século.” Um mês depois, na Academia de Música de Nova Iorque, perante centenas de testemunhas e repórteres de todos os jornais da cidade, as irmãs Fox reproduziram as pancadas supostamente dadas pelos espíritos, fazendo estalar o dedo grande do pé! Os famosos seres espectrais não passavam de estalidos de ossos.

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